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Os viadutos e os corpos no chão – por Pedro Andrade

No início da semana passada, fomos surpreendidos com a notícia de que a prefeitura da cidade de São Paulo instalou paralelepípedos de concreto embaixo de viadutos no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da metrópole.

No início da semana passada, fomos surpreendidos com a notícia de que a prefeitura da cidade de São Paulo instalou paralelepípedos de concreto embaixo de viadutos no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da metrópole.

A justificativa, no início, era que a instalação evitaria descarte inadequado de lixo, mas é claro que não colou. A medida era higienista, ponto. A região onde o viaduto está localizado, é a segunda com mais transeuntes na capital paulista, que nos últimos indicadores, apresenta mais de 30 mil pessoas vivendo nas ruas.

No início da semana passada, fomos surpreendidos com a notícia de que a prefeitura da cidade de São Paulo instalou paralelepípedos de concreto embaixo de viadutos no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da metrópole.

O Padre Júlio Lancelotti, presbítero e coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, decidiu quebrar com marteladas os blocos de concreto. Conhecido por sua militância atrelada aos direitos humanos e à defesa da comunidade LBTQ+, o padre afirmou por meio de redes sociais que a medida era “inacreditável”.

A prefeitura de São Paulo, em nota, disse que a decisão de construir os paralelepípedos partiu de um único funcionário e que foi tomada de “modo isolado”. Garantiu também que o mesmo foi exonerado de suas funções.

É interessante, no entanto, notar como tudo parece cíclico na capital paulista. Os viadutos em questão foram construídos na Avenida Salim Farah Maluf, concluída na década de 1980, e nomeada em homenagem ao pai de Paulo Maluf, prefeito de São Paulo por duas vezes. Entre as marcas de suas gestões (a primeira delas em cargo biônico, indicado pelo Regime Militar), Maluf, que é engenheiro civil, idealizou as faraônicas marginais Tietê e Pinheiros e também o controverso Minhocão.

Não é preciso muito para conhecer as problemáticas que envolvem o elevado, que já recebeu o nome de Costa e Silva, presidente responsável pelos mais duros atos da Ditadura Militar. Além de debilidades relacionadas à poluição sonora e visual, o Minhocão serve de abrigo a moradores de rua no centro expandido de São Paulo. Paulo Maluf foi também secretário de transportes do governo do estado e contribuiu decisivamente para as obras do Rodoanel, por exemplo.

Não é novidade a sanha de se construir pontes e viadutos na capital paulista, que, ironicamente, em seus limites urbanos, é uma das regiões metropolitanas com mais rios e córregos no mundo. Onde eles estão? Canalizados e enterrados por um modelo econômico que gosta de concreto e transporte individual.

Os viadutos não devem ser a casa de ninguém. Mas é irônico pensar que, o centro, onde estão majoritariamente localizados e onde os moradores buscam abrigo, também é a região com mais imóveis ociosos na cidade de São Paulo. Os instrumentos que regulamentam os patrimônios inocupados estão instalados desde a constituinte e sinalizam para medidas que vão desde IPTU progressivo até a desapropriação dos imóveis. Vive na ineficácia.

Um dos planos de governo dos candidatos que chegaram ao segundo turno da disputa eleitoral em São Paulo, confrontava diretamente o mercado imobiliário e os imóveis inutilizados no centro da cidade. Em editorial, no dia 22 de Novembro, uma semana antes da eleição em segundo turno, um dos jornais da capital afirmava que a cidade precisava de uma gestão “pés no chão” e que não era hora para aventuras. Pareceu um presságio para que continuem não só os pés, mas os corpos inteiros no chão, deitados, dormindo e à míngua.

SOBRE O AUTOR:

Pedro é jornalista formado pela UEPG. Atualmente é pós-graduando em Mídia, informação e cultura na ECA/USP e copywriter em uma agência de soluções digitais. Neste espaço, escreve sobre cidade, planejamento urbano e tudo que envolve o tema

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