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Afinal, ele era meu pai – por Ana Claudia Domingues

Ana Claudia Domingues – Colunista 15 News

Sempre que eu ouvia os passos dele, meu coração palpitava, mas, infelizmente, não era de alegria.

Aos 60 anos eu não me lembro de bons momentos paternais na minha infância, pelo contrário. Me lembro de um homem triste, sombrio e extremamente submisso. Não era o melhor exemplo paternal, não era sequer um bom exemplo.

Nós tínhamos alguns poucos momentos bons, mas nunca era algo palpável, era mais algo sentido bem no fundo do coração, ao menos do meu. Ele me olhava, vez ou outra, e eu sentia amor, mas esses momentos iam embora como num passe de mágica, era tudo tão rápido.
Após me olhar com muito amor, ele me desferia um tapa na cara, não era forte, nunca foi algo extremamente forte, mas me fazia chorar muito e, embora não doesse fisicamente, me causou dores na alma tão fortes que passei muito tempo da minha vida sem conseguir ver alguém levantar o braço sem ter uma pequena crise de pânico.

Eu sei que eram tempos difíceis, nós não tínhamos acesso a absolutamente nenhum tipo de informação, sequer ouvíamos falar em abuso, para nós era tudo muito simples e se as coisas eram daquele jeito, era porque daquele jeito elas deviam ser. Ele mandava e eu, criança, obedecia. Morávamos tão longe de todos, em uma área rural nada valorizada pela vida urbana e, lá, longe de toda a sociedade, eu tinha certeza que todos agiam assim, que essa era a vida normal de todas as crianças e, dessa forma, eu conseguia esconder as minhas dores, mas, o peso das atitudes de meu pai foram crescendo em mim de maneira tão desconhecida, visto que eu não passava de uma criança que não conhecia outras crianças, e tão avassaladora que, sem que eu pudesse perceber, começou a afetar o meu cérebro e, numa bela noite onde a mão do meu pai tinha me atingido novamente, ouvi alguém falar comigo através da parede.

– Vinícius! – A voz sussurrou meu nome.

Lembro exatamente da sensação que tive assim que ouvi aquele sussurro.

Todos as minhas articulações endureceram, meus olhos arregalaram, e meus ombros começaram a doer. Eu sabia que estava ficando louco.
Naquele dia a voz foi embora na mesma velocidade em que apareceu, mesmo assim eu não consegui ficar em paz.

Depois de muito tentar dormir, peguei meu travesseirinho e fui para o quarto dos meus pais. Bati na porta uma, duas, três vezes… na terceira vez a voz do meu pai me disse para e entrar e eu, com medo, entrei.

Ele me olhou com tanto amor, que nem parecia ser o meu pai e foi com esse olhar de amor que ele me perguntou o que havia acontecido. Eu contei que estava com medo de dormir no meu quarto, perguntei a ele se eu poderia passar a noite ali e, assim que minha mãe acordou, o olhar dele mudou e ele me disse num português não tão correto NÃO, OCÊ TÁ GRANDE PA DURMI CUNÓIS e voltou a se deitar.

Ali eu tive a certeza que já me era bastante clara, eu não poderia contar com ele para nada.

E, assim, na segunda vez que a voz falou meu nome, eu respondi.
Naquela noite eu estava muito cansado. Cansado da minha vida, cansado das marcas que estavam ficando no meu coração, cansado de tentar fazer tudo certo e, ainda assim, o único amor que eu conseguia receber eram alguns olhares aleatórios durante o dia. Eu era um menininho de apenas 6 anos de idade, e eu já estava exausto de viver.

Ainda hoje aquele dia está muito claro na minha cabeça…

Estava deitadinho em posição fetal no meu velho colchãozinho no canto da parede pensando em tudo o que havia acontecido antes. Meu pai tinha me olhado com amor novamente, e eu fiquei tão emocionado que derrubei o meu prato com farinha e leite. Os olhos dele arregalaram e eu achei que ele fosse me matar, mas parecia que era ele que estava morto. Minha mãe gritou de lá da cozinha, perguntando o que tinha acontecido, meu pai respondeu que foi ele. Só Deus sabe o tamanho da minha alegria quando ele assumiu uma culpa que era minha, mas minha mãe apareceu ali na sala e viu que era mentira, olhou furtivamente para o meu pai e ele, sem olhar nos meus olhos, me deu 3 tapas na cara, me segurou pelo braço e me levou para o quarto.
Antes de sair eu vi que os olhos dele estavam tristes, acho que vi até algumas lágrimas escorrendo por ali, mas eu devia estar enganado, afinal de contas, ele devia gostar de me bater, por isso faria isso tantas vezes.
Eu queria chorar, mas não podia, não conseguia. O meu rosto não doía, os tapas eu quase não sentia, e eu estava mesmo extremamente cansado.
Meus olhinhos começaram a se fechar quando ouvi alguns passos em minha direção. Meu coração acelerou, já que eu não ouvi o barulho da cortina de miçangas. O quartinho era pequeno, então os passos foram ouvidos rapidamente, e parado rapidamente também.

Creio que ouvi 6 passos e então, tudo parou.

Meu corpo começou a tremer, eu sabia que não estava sozinho ali, mas eu também sabia que não enxergaria ninguém, então, o que me restava era sentir medo. Mas aquele medo ainda era muito pequeno perto do que aconteceria segundos depois.

Ali deitado, com o corpo tremendo, com o coração acelerado, garganta seca e olhos cerrados eu senti e ouvi uma respiração passar pela minha nuca.
Era uma respiração lenta, gélida e sem fim. Eu me pressionei ainda mais, até que meu corpo estava todo dolorido e, então, enfraquecendo-me fisicamente, a voz falou meu nome…

… e eu respondi.

– Oi, quem é você? – foi o que eu perguntei.
– Você sabe quem sou eu. – a voz respondeu.

Não, eu não sabia, mas no fundo eu sabia, eu sentia. Você entenderá já já, se é que ainda não entendeu.

Não foi tão assustador quanto eu pensei que seria, pelo contrário, foi bastante acalentador. A voz me tranquilizou naquela noite, e em todas as outras também. Eu sentia que a conhecia de algum lugar, que devia conhecê-la e, assim, eu fui um pouco mais feliz naquela minha triste vida… e assim segui.

Devo mudar de assunto só um pouquinho. Eu sei que o foco aqui é o meu pai e tudo o que ele era para o seu filho, mas eu preciso dizer a vocês que com a minha mãe, o relacionamento era o inverso.

Ela me tratava bem, não com carinho, eu achava que nunca tinha tido o carinho de ninguém, mas ela me tratava bem. A diferença estava no olhar, eu sentia amor quando meu pai me olhava, mas quando ela me olhava eu sentia raiva, dor, ódio.

Você imagina o quanto disso tudo é extremamente complicado para uma criança de seis anos de idade?

Enfim, minha mãe era muito mandona com meu pai. Eu sentia que havia algo ali, não era amor, não era lealdado, não era nada que um casamento saudável precisava ter, era o inverso disso tudo, mas eu nunca tinha identificado nada disso até que, um dia, a voz me falou. Ela me disse claramente que aquilo tudo não passava de chantagem, e me explicou o que era chantagem, já que eu não tinha a menor ideia e, foi então, que comecei a reparar naquilo que mais me confundia naquela casa: os olhares.

E foi assim que eu percebi que meu pai só me batia sob um perverso olhar vindo da minha mãe e percebi, também, que todos os olhares de amor destinados a mim, eram em momentos onde a visão de minha mãe estava distante. E no fim disso tudo, o único momento onde eu podia ficar em paz, era com meu amigo invisível ou quando os dois estavam trabalhando na horta do terreno e eu ficava sozinha deitado em meu velho colchão, ou brincando com pedrinhas.

Sim, eu tive que trazer a relação com minha mãe à tona, porque agora a história se elucida ou, no máximo, começa a fazer um pouco de sentido.

Vale ressaltar que eu era muito calmo, bastante calmo mesmo, pois eu era triste, extremamente triste, então eu não dava trabalho para nenhum dos dois. Não havia motivos para que meu pai me batesse, assim como não havia motivos para que minha mãe me desferisse aquele olhar que machucava. Eu comecei a ser um pouco mais criança quando a voz apareceu e, então, eu ouvia tudo o que ela dizia…
Um dia ela me disse para correr pelo terreno, para brincar, porque era isso que ele faria se estivesse vivo, brincaria comigo, e assim o fiz.
Mas eu nunca pude brincar, correr então, nem se fala. Eu precisava ser muito comportado, senão meu pai iria me bater.
Quando saí pela porta e comecei a correr, eu comecei a rir. Eu estava me sentindo livre. Correr era bom, era gostoso, era engraçado. Mas como uma criança desacostumada, eu não tinha muito jeito para correr e caí de cara no chão.
Meu nariz sangrou, meu dente quebrou e eu gritava pela minha mãe e pelo meu pai. Eu precisava que algum deles em ajudasse, pois tudo doía.

Meu pai apareceu primeiro. Veio correndo, perguntou o que tinha acontecido e eu disse.

Ele me abraçou, mas logo minha mãe apareceu. Quando eu vi aquele olhar vindo dela, já fechei meus olhos e esperei o tapa vir, mas ele não veio e uma coisa muito estranha aconteceu.

– AGORA NÃO! – foi o que meu pai disse a ela. Então ele me carregou, me levou até o banheiro, lavou meu rosto e cuidou de mim.
Quando me deitei para dormir, eu os ouvi brigando e então uma mágica aconteceu dentro de mim. Minha mãe disse em alto e bom som:

– Cê sabe o que vai acontecê, num sabe? Esqueceu o que aconteceu na primeira vez que me trocô por um deles.

– Eu num… nada disso faz sentido, cê é loca!

– É isso que cê qué, é isso que cê vai tê.

– NÃO. De novo não. – Disse meu pai com uma raiva que eu jamais tinha ouvido antes.

Quando ele falou ‘de novo não’ eu me lembrei de algo que eu tinha esquecido havia muito tempo e então eu soube a quem aquela voz pertencia.

Minha mãe era uma mulher obcecada, extremamente doente, e capaz de muita atrocidade, além de ser muitíssimo inteligente.

Meu pai era um homem bastante simples, havia perdido os pais na adolescência e morou naquela casinha a vida toda. Pelo que ele me conta, ela apareceu ali, dizendo que estava perdida, mas ele sabia que ela morava no sítio ao lado, ele já a tinha visto uma vez, com um outro homem que nunca mais haviam visto. Ela chegou dizendo que fugiu do marido que batia nela e, de repente, havia parado ali. Meu pai acreditou, a recebeu com carinho e ela ficou.

Rapidamente ele estava apaixonado por ela e decidiram firmar relacionamento. Mas ela tinha sérios problemas e devagar foi sugando toda a energia do meu velho, até que ele não saía de casa mais. Ela queria o queria só para ela. SÓ PARA ELA! E não aceitaria que ninguém viesse tomar o seu lugar de importância na vida dele.

E então, ela engravidou… Quando a parteira chegou e tirou a criança, minha mãe desmaiou e foi um sufoco para tirar a segunda, que ela nem sabia que existia.

Meu pai ficou em plena alegria e nos amou no segundo em que nos viu, mas ela não. Quando melhorou, não queria nos amamentar, e odiava ver o meu pai dando atenção aqueles seres tão pequenos, ao invés de cuidar dela.
Nós estávamos aprendendo a andar quando meu irmão caiu e se machucou. Meu pai cuidou dele e minha mãe enlouqueceu, de verdade.
Ela surtou e, alguns dias depois, tirou a vida do próprio filho, por medo de perder meu pai.

Aí ela perdeu mesmo, sabe? Meu pai chegou a sair de casa comigo, mas ela tinha um grande poder sobre ele e sob ameaças, ele voltou.

Desde então eles tinham um acordo, meu pai não podia me tratar melhor que ela, senão o meu fim seria o mesmo do meu irmão.

– Espera, sr. Vinícius. Você está querendo dizer que seu pai ficou com sua mãe mesmo depois dela assassinado seu irmão? Você quer dizer que ela tinha um poder tão grande assim sobre ele?

– Eu não sei dizer nada do que acontecia, ou do que aconteceu. Meu pai só conseguiu me contar essa história depois de velho e a cabeça dele já não funcionava direito, não sei o quanto dessa história é verdade, o que sei é que meu irmão morto me salvou e eu sempre senti amor quando meu pai me olhava.

– Tá, mas o que aconteceu quando sua mãe falou que faria algo com você por conta dos seus machucados?

– Ah, eu me lembro bem pouco. Mas parece que meu pai a amarrou, me pegou pelo colo e corremos, literalmente, para a cidade. Onde uma senhora muito amorosa nos ajudou.

– E sua mãe? O que houve com ela?

– Eu não sei, e acho que meu pai também não sabe.

– Você cuida dele desde quando?

– Desde o primeiro AVC. E eu cuido com todo amor do mundo.

– Mesmo que ele tenha te tratado dessa forma simplesmente para atender
aos desejos de uma louca?

– Não era assim. Quando ele me batia sem força alguma, ele estava cuidando de mim. Quando ele fazia os desejos daquela louca, era para me proteger de toda a maldade dela. Do jeito mais torto e mais estranho que podia existir, meu pai cuidou de mim a vida toda. Eu sabia que ele me amava, sempre soube, afinal de contas, ele era meu pai de um jeito que ela nunca havia sido minha mãe.

Sobre a autora:
Bibliotecária formada pela PUC de Campinas, pós graduanda em produção cultural, arte e entretenimento pela Unyleya. Seu objetivo como colunista segundo ela mesmo afirma é simples, alcançar os amantes das histórias de terror/suspense/mistério e fazer com que suas histórias sejam conhecidas.

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